Crônicas de um Anjo 2 - Missão de Criança


Eu estava sozinho e andava por horas. O tempo não passava. Olhei para o meu relógio e vi que os ponteiros não se mexiam. A praça estava vazia com poucos transeuntes e os pássaros dormiam. Parei um pouco e senti que alguém me observava.
Olhei para todos os lados e não vi quem era. No entanto um arrepio circulava por toda a minha pele e percebia que não estava sozinho.
_ Ei, você! Por que anda por este lugar sozinho?
Um ser sombrio como que coberto de fumaça negra me chamou. O frio percorreu meus ossos.
_ Venha para perto de mim. Preciso que me acompanhe. Eu o levarei até seus pais. Eles o esperam.
Ele apontou um caminho escuro com o indicador enrugado que emergiu de sua capa preta. Não consegui enxergar a trilha para onde ele apontou o dedo.
Ouvi outra voz que me chamou e continuei não vendo ninguém. O homem da capa preta desapareceu como a lua no tempo nublado. Perto de uma árvore por debaixo de uma penumbra uma pessoa apareceu. Ela usava uma roupa branca com um capuz também de cor branca que lhe cobria parcialmente o rosto. Sua face estava escondida como a sombra de onde veio. Não consegui ver seus olhos. Apenas o ouvi parecendo sussurrar:
_ Sente-se neste banco, minha doce criança. Precisamos conversar.
_ Que lugar é este e quem é você? - perguntei com as mãos trêmulas de medo.
_ Você está vendo estas poucas pessoas que por aqui transitam. Elas estão esperando alguém vir buscá-las. Estou aqui para ajudar você a encontrar o seu caminho.
_Onde estão meus pais?
_ Não se preocupe. Eles também estão vindo para cá.
Fiquei um pouco assustado e de alguma forma aquele ser me acalmou. Ele pediu que eu o acompanhasse e começamos a andar em direção a um caminho iluminado. Logo pensei que estava morto. Lembrei-me das histórias do além que sempre ouvia minha querida avó contar.
_ Você está mais vivo do que nunca. Preciso levá-lo ao outro lado daquele portal.
Resolvi acompanhá-lo, porque depois de ver o outro ser sombrio, o que eu queria mesmo era sair dali. O ser iluminado começou a me contar histórias e a me ensinar coisas sobre a vida.
_ Por que me trouxe até aqui? Quero ficar com a minha família.
_Quem trouxe você foi o seu coração. Você foi levado a um campo de concentração e junto com milhares de crianças entrou em uma câmara de gás.
_ Que ano é este? Não me lembro disso.
_ Não são coisas boas para se lembrar. Você foi escolhido para ajudar as outras pessoas do mundo de onde veio e protegê-las de pessoas más como as que o levaram ao campo de concentração.
_ Sou apenas uma criança. Não sei ajudar os outros.
_ Não se preocupe. Aprenderá e seu coração vai guiar você. Aqui não há crianças nem adultos. Somos todos iguais. Seu pensamento de compaixão é o que mostra a sua idade, o tamanho de sua maturidade espiritual. No mundo dos homens muitas pessoas sofrem com problemas de relacionamento, doenças, finanças e muitas outras coisas, pelas quais você não passou. Alguns vivem para procurar problemas, outros que já os têm conseguem superá-los e a maioria procura uma vida de sucesso, fama e dinheiro que não tem valor algum aqui. O corpo vira terra, o tempo traz as rugas e os valores mudam.
_ Mas sou ainda uma criança e não sei ensinar.
_ Precisamos de sua inocência e de sua generosidade. Aqueles que você vai ensinar viram adultos e velhos e não aprendem a bondade que você tem no coração. Por isso o escolhemos.
Continuei a andar com aquele ser, que já não me amedrontava. A luz encheu meus olhos e sabia que tinha renascido. Não me sentia só. Encontrei o meu caminho...

Chaiene Santos

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