Crônica de um Anjo 1 - O Valor do Perdão - por Chaiene Santos:

Crônica de um Anjo 1 - O Valor do Perdão - 
por Chaiene Santos:

Um senhor chamado Cristóvão estava sentado em uma praça deixando o tempo passar. Era domingo, um dia de sol e as árvores lhe davam a sombra e o frescor que precisava para aguentar o calor. Olhava o chafariz que soltava algumas gotículas para fora refrescando ainda mais quem ficava próximo a ele. 
Enquanto olhava os pombos ciscando pelo chão em volta dos bancos e das pessoas, um senhor vendedor de picolés sentou-se ao lado dele.
_ Que dia lindo. Está calor, mas este lugar é refrescante! O senhor aceita um picolé?
_ Não obrigado! Tenho diabetes. Não posso comer açúcar.
_ Tenho picolé diet.
_ Não obrigado. Não gosto de sorvetes.
E Seu Cristóvão continuou a olhar as pessoas que passeavam pelo lugar. De repente viu um grupo de jovens e dentre eles estava o filho de seu vizinho.
_ Está vendo aquele garoto. Ele não vale o prato de comida que come. Tem apenas 16 anos, no entanto só vive aprontando.
_ Desculpe-me senhor, eu não sou daqui. Estou apenas de passagem. Tenho um parente que mora nesta cidade e para ficar aqui por alguns dias aproveito e vendo picolés para garantir o meu sustento. - retrucou o vendedor de sorvetes.
_ Como eu gostaria que a polícia pegasse aquele jovem e o prendesse para que sofresse muito na cadeia.
_ Caro senhor. Não deseje o mal para o seu próximo. O mundo gira e o jovem pode encontrar seu rumo e ser uma pessoa boa no futuro. O bem e o mal estão dentro de cada um de nós. Precisam estar em equilíbrio. Conhecê-los é a melhor maneira de dominá-los e escolher qual deles praticaremos em nossa vida. Isso determinará quem seremos no futuro, as escolhas, as amizades, os amores e até mesmo os próximos estágios de nossa existência. Por isso, temos o livre arbítrio.
_ Por que você está me dizendo isso. Por acaso o senhor já foi um monge ou um padre?
_ Não senhor. É que o tempo passa muito rápido e tudo na vida muda. Breve não estaremos mais aqui e o que fazemos e desejamos nesta vida é o que determinará para onde iremos em seguida.
Seu Cristóvão saiu de perto do homem e se sentou em outro banco na praça. Olhou com desdém para o filho de seu vizinho. Virou-se para olhar um pássaro que cantava no alto de uma copa verde e voltou a olhar para o vendedor de picolés que pensou ser um idiota falando palavras que não gostava de ouvir, porém o homem desaparecera subitamente.
Passados quinze anos, a mulher de Seu Cristóvão e toda a família correram para o hospital. O time dele ganhara o campeonato e o coração do senhor não aguentou a emoção sofrendo um infarto do miocárdio. Ele foi atendido por um excelente profissional que imediatamente executou com habilidade todos os procedimentos de primeiros socorros e salvou sua vida depois de uma cirurgia de sucesso. Quando deu por si, abriu os olhos e alguém estava segurando suas mãos:
_ Seu Cristóvão. Que bom que o senhor está vivo! - disse o médico que era o mesmo filho do seu vizinho para quem desejara o mal.
_ Não pode ser. É você mesmo?
_ Sim senhor. Me formei cardiologista e trabalho aqui na cidade. Eu amo meu trabalho e estou namorando sua filha. Estávamos esperando um tempo para lhe contar. Todos diziam que o senhor não gostava de mim.
A mulher de Seu Cristóvão abraçou-lhe e disse com a muita alegria:
_ Meu bem. Que bom que você está se recuperando. Eu amo você e morreria se você fosse embora.
_ Meu filho. Eu agradeço pelo bem que você me fez. Tem a permissão para namorar a minha filha. Muito obrigado! - disse Seu Cristóvão com a voz meio falhada com o cansaço que ainda sentia, enquanto seus olhos soltavam lágrimas que foram compartilhadas por todos na sala.
Quando se recuperou totalmente, Seu Cristóvão voltou até a praça onde gostava de passear aos domingos, olhou por todos os cantos e viu o homem vendendo picolés a uma distância de 50 metros de onde ele se encontrava.
_ Estranho! O senhor vendedor de picolés ainda está com a mesma aparência. Parece que não envelheceu. - pensou.
E saiu andando em direção ao homem. Alguém o chamou:
_ Cristóvão!
Era sua mulher que agora estava mais preocupada com ele e não queria deixá-lo sozinho.
_ Maria Antônia. Queria que conhecesse uma pessoa especial. Corre que o apresentarei a você.
_ Quem é Cristóvão. Por que tanta pressa?
Seu Cristóvão andou até o banco onde estava o senhor, mas o vendedor de picolés havia sumido. Ele se lembrou das palavras que ouvira e que se repetiam em sua mente.
_ Meu senhor não deseje o mal para o seu próximo. O mundo gira...

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