O PRECONCEITO CONTRA A ROÇA




A sociedade brasileira, infelizmente, enxerga seu universo rural com preconceito. Em decorrência, menospreza a importância
da agropecuária na geração do emprego e da renda nacional. Pior, atribui ao setor uma pecha negativa: o moderno está na cidade;
o atraso, na  roça.
Razões variadas explicam esse terrível preconceito. Suas origens remontam ao sistema latifundiário. Com a acelerada urbanização, o violento êxodo rural subverteu, em uma geração, os valores sociais: quem restou no campo virou passado. As distâncias geográficas do interior, a defesa ecológica, a confusão da reforma agrária, o endividamento rural, todos esses fatores explicam a prevenção contra o ruralismo.
Na linguagem popular, o apelido depreciativo é sempre da agricultura. Fulano é burro, vá plantar batatas! Nas finanças, o malandro é laranja. Que pepino, hein? Um grande abacaxi! Ninguém usa comparações positivas: íntegro como boi, bonito qual é jequitibá! Na música, a sanfona, ou a viola, é brega. Pior de tudo, nas festas juninas, crianças são vestidas com calças remendadas, chapéu de palha desfiado e, pasmem, dentes pintados de preto para parecerem banguelas.
Triste país que deprecia suas origens. Um misto de desinformação e preconceito impede que a agricultura ressalte sua força e seu valor. As mazelas do campo — ainda são muitas — suplantam, na mídia, os benefícios da modernidade rural. Os meios de comunicação focalizam seus problemas e não as vitórias alcançadas. Miopia cultural.

Xico Graziano. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/7/2001 (com adaptações).

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