Crônicas de um viajante 4

Estava o estudante Carlos Antônio no sexto período da Faculdade. Um amigo seu que já cursava o último período, contou-lhe a respeito de um estágio na cidade de Duas Barras, próxima à sua em 40 Kms, aproximadamente. A prefeitura pagava um salário-mínimo por mês pelo estágio de um dia por semana.
O jovem logo ficou interessado e viajou para a cidade para arranjar uma vaga de emprego. Logo que chegou à cidade conheceu um bar, onde havia uns bolinhos de bacalhau deliciosos. Mas continuemos com o foco da história.
Chegando ao posto de saúde, fez seu cadastro e esperou o chamado.
Ele foi designado para trabalhar em um ônibus, onde havia um consultório dentário montado e que podia ir às diversas localidades da cidade prestar atendimento odontológico. Começou a trabalhar num bairro chamado "Mata-cobras", que tinha uma escola, onde o  veículo estacionava para oferecer ao povo, o atendimento. Muitas pessoas já esperavam quando eles chegavam. Crianças com dor de dente, adultos com abcessos dentários e rostos inchados. Dentes com "panelas", como eram chamadas as cáries.
Carlos Antônio prontamente atendia a todos com a energia que parecia infinita. Assim, aquelas pessoas humildes ficavam gratas e traziam legumes, ovos e frutas para presentear ao rapaz e o motorista do ônibus. O estagiário de odontologia levava para casa sacos de tomate, batata e outras leguminosas ofertadas pelo povo.
Um dia, Dona Maria e Seu Carlito, que eram caseiros do sítio onde ficava a escolinha, convidou o estudante e o motorista do ônibus para almoçar na casa deles e ela cozinhava muito bem. Eles gostaram muito do almoço, pois costumeiramente comiam os alimentos cozidos, rotineiramente, na escola.
Um pai de um menino que foi cuidado por Carlos resolveu dar-lhe um frango de presente. Acontece que o frango estava vivo. Assim ele perguntou ao pai do garoto:
- Senhor, muito obrigado, mas como vou levar este bicho na minha mochila, no ônibus para minha cidade?
- Não tem problema não, uai. É só você colocar a cabeça dele para fora - respondeu o pai do menino.
- Mas, as pessoas vão pensar que eu sou ladrão de galinhas - disse o jovem.
Dona Maria, ouvindo a conversa, resolveu interceder:
-Você não pode recusar o presente, pois isto magoaria  o pai do menino. Porém, eu posso deixar ele crescendo aqui no meu quintal e qualquer dia desses, você pode almoçá-lo.
- Está bem. Boa ideia, senhora - respondeu o rapaz.
O motorista gostou muito da ideia, já que gostava muito de almoçar na casa dos caseiros.
Um dia, quando estavam comendo um frango ensopado na casa de Dona Maria, ela disse:
- Este frango que você está comendo é aquele que você ganhou naquele dia.
- Está muito bom. Foi bom deixar o bicho engordando no seu quintal. Frango caipira é mais gostoso.
E assim foi o rapaz estagiando e convivendo com aquele povo maravilhoso que já o chamava de doutor, embora ele soubesse que estava apenas começando e que muita coisa ainda o esperava na profissão. Mais tarde ele descobriria que por mais que você estude e trabalhe nesta vida, sempre haverá muito o que fazer. Pois, isto é viver!

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